O que entra pelos olhos também adoece a alma
Vivemos uma era de culto à aparência.
Corpos bem definidos, rotinas impecáveis, alimentos orgânicos, dietas restritivas, horas na academia.
O corpo virou projeto. A estética, prioridade.
Mas quase ninguém se ajoelha para perguntar, em silêncio:
como está a minha alma?
O cuidado costuma parar no que é visível.
Escolhemos com rigor o que entra pela boca,
mas deixamos passar sem filtro o que entra pelos olhos,
o que ecoa nos ouvidos,
o que se assenta no coração
e os pensamentos que aceitamos como verdade.
A alma também adoece por excesso.
Excesso de ruído.
Excesso de comparação.
Excesso de notícias que roubam a esperança.
Excesso de violência disfarçada de entretenimento.
Excesso de pornografia — não apenas do corpo,
mas da mente, da moral e do espírito.
Vamos absorvendo tudo.
As frustrações dos outros.
As palavras que ferem, mas são chamadas de “opinião”.
Ambientes tóxicos tratados como maturidade.
Conversas que não edificam.
Imagens que profanam o silêncio interior.
E então nos perguntamos por que estamos tão cansados.
Por que o coração anda pesado.
Por que a alegria se tornou rara.
Por que, mesmo fazendo “tudo certo”, algo dentro de nós definha.
A Escritura já nos advertia:
assim como o alimento contaminado adoece o corpo,
o que não é puro, verdadeiro e bom
adoece a alma.
Ninguém permanece intacto
àquilo que consome todos os dias.
Cuidar da alma exige vigilância.
Exige guarda.
Exige escolhas conscientes.
É vigiar os olhos.
É guardar os ouvidos.
É escolher com quem se caminha.
É não permitir que qualquer voz
tenha autoridade sobre quem somos.
Cuidar da alma é aprender a dizer, sem culpa:
“isso não me nutre.”
“isso não me edifica.”
“isso não vem de Deus.”
A alma precisa de descanso.
De silêncio.
De verdade.
De presença.
De relações que sustentam, não que drenam.
Afastar-se não é fraqueza.
É sabedoria.
Proteger-se não é egoísmo.
É maturidade espiritual.
Se investimos tanto esforço no corpo — que é pó —
por que negligenciamos aquilo que é eterno dentro de nós?
Talvez a pergunta mais urgente do nosso tempo não seja
o que você anda comendo,
mas sim:
do que você tem alimentado a sua alma — todos os dias?
Também escrevo em inglês para alcançar leitores de outros países.
Franciele Vargas, jornalista e autora do livro Deus Também Vê as Borboletas.
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